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PROVAS HISTÓRICAS INCONTESTÁVEIS CONTRA O PAPADO
PROVAS HISTÓRICAS INCONTESTÁVEIS CONTRA O PAPADO

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Este artigo é parte do meu livro "A História não contada de Pedro"
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Ao longo de todo este livro, nos dedicamos a refutar os mitos papistas relativos à pessoa de Pedro, como sendo o “bispo dos bispos”, “chefe dos apóstolos”, “bispo universal”, “príncipe dos apóstolos”, “cabeça da Igreja” e “Sumo Pontífice”, todos estes termos técnicos para designar a pessoa de Pedro, como sendo o “papa” que liderou a Igreja de Roma por vinte e cinco longos anos – outro mito facilmente refutado pela Bíblia e pela História.

 

Ocorre que a Igreja Católica Romana alega não apenas que Pedro era tudo isso, mas que ele tinha sucessores (bispos romanos) que também eram e são tudo isso que Pedro era. Se Pedro não era nada disso, então obviamente seus “sucessores” também não têm este poder. Além disso, se Pedro nunca foi bispo de Roma (como comprovamos biblicamente e historicamente), então os bispos romanos não são “sucessores de Pedro”.

 

Mas para não deixar este assunto sem uma refutação histórica, irei ser o mais breve possível na exposição das evidências históricas de que os bispos romanos não exerciam um primado universal sobre todos os demais bispos da Igreja, assim como Pedro não exerceu uma jurisdição universal sobre todos. O assunto tratado neste capítulo é amplo, e seria necessário escrever um livro inteiro apenas sobre isso para tratarmos apropriadamente todas as provas, coisa essa que faremos em outra oportunidade, já que aqui pretendemos tratar mais diretamente da pessoa de Pedro, especificamente.

 

Portanto, passarei aqui apenas algumas das evidências históricas contra o primado do bispo romano, pois este capítulo não tem por objetivo esgotar este tema, o que certamente será feito em um livro onde eu abordo especificamente a primazia do bispo romano nos primeiros séculos da Igreja cristã.

 

               

Inácio de Antioquia reconhecia o primado de um bispo romano?

 

Um dos primeiros bispos que escreveu sobre a organização eclesiástica da Igreja primitiva foi Inácio (35 – 107 d.C), bispo de Antioquia. Ele escreveu pelo menos sete cartas reconhecidas como autênticas pelos historiadores antigos e contemporâneos, inclusive uma aos romanos. Se existia um bispo de Roma exercendo um primado universal sobre todos os demais, certamente ele seria o primeiro a mencionar isso, sem a menor hesitação.

 

Contudo, vemos ele deixando claro, repetidas vezes, que a nossa submissão deve ser aos diáconos, aos presbíteros e aos bispos locais, sem nunca ter mencionado uma submissão a um Sumo Pontífice ou bispo universal (romano), o que seria de se esperar caso a Igreja da época fosse a Igreja Romana e o bispo de Roma fosse um “papa infalível” com poderes de jurisdição universal, como autoridade suprema a todos os bispos, de acordo com o ensino tardio da Igreja de Roma.

 

Vejamos alguns exemplos:

 

-Inácio aos Magnésios (Versão Curta):

 

“Por isto vos peço que estejais dispostos a fazer todas as coisas na concórdia de Deus, sob a presidência do bispo, que ocupa o lugar de Deus, dos presbíteros, que representam o colégio dos apóstolos, e dos diáconos, que são muito caros para mim, aos quais foi confiado o serviço de Jesus Cristo, que antes dos séculos estava junto do Pai e por fim se manifestou”[1]

 

“Assim como o Senhor nada fez, nem por si mesmo nem por meio de seus apóstolos, sem o Pai, com o qual ele é um, também vós não façais nada sem o bispo e os presbíteros[2]

 

“Procurai manter-vos firmes nos ensinamentos do Senhor e dos apóstolos, para que prospere tudo o que fizerdes na carne e no espírito, na fé e no amor, no Filho, no Pai e no Espírito, no princípio e no fim, unidos ao vosso digníssimo bispo e à preciosa coroa espiritual formada pelos vossos presbíteros e diáconos segundo Deus”[3]

 

-Inácio aos Tralianos:

 

“Quando vos submeteis ao bispo como a Jesus Cristo, demonstrais a mim que não viveis segundo os homens, mas segundo Jesus Cristo, que morreu por nós, a fim de que, crendo em sua morte, possais escapar da morte. É necessário, portanto, como já o fazeis, nada realizar sem o bispo, mas também submeter-vos ao presbítero, como aos apóstolos de Jesus Cristo, nossa esperança, no qual nos encontraremos em toda a nossa conduta. É preciso, também, que os diáconos, ministros dos mistérios de Jesus Cristo, agradem a todos e de todos os modos. Com efeito, não é de comida e bebida que eles são ministros, e sim servidores da Igreja de Deus. É preciso, portanto, que eles evitem qualquer tipo de repreensão, como se evita o fogo”[4]

 

“Da mesma forma, todos respeitem os diáconos como a Jesus Cristo, e também ao bispo, que é a imagem do Pai, e os presbíteros como à assembleia dos apóstolos. Sem eles, não se pode falar de Igreja. Tenho certeza que pensais do mesmo modo a respeito disso. Com efeito, recebi e tenho comigo um exemplar de vosso amor ao vosso bispo: a postura dele é grande ensinamento e sua mansidão é uma força. Penso que até os ateus o respeitam”[5]

 

“Cuidado, portanto, com essas pessoas. Fazei-o sem vos encher de orgulho, permanecendo inseparáveis de Jesus Cristo Deus, do bispo e dos preceitos dos apóstolos. Aquele que está dentro do santuário é puro, mas aquele que está fora do santuário não é puro; ou seja, aquele que age sem o bispo, sem o presbítero e os diáconos, esse não tem consciência pura”[6]

 

“O amor dos esmirniotas e dos efésios vos saúda. Em vossas orações, lembrai-vos da Igreja da Síria, da qual não sou digno de ser parte, pois sou o último dentre eles. Passai bem em Jesus Cristo, submissos ao bispo como ao mandamento, e igualmente ao presbitério. Todos, individualmente, amai-vos uns aos outros, de coração não dividido”[7]

 

-Inácio a Policarpo:

 

“Atendei ao bispo, para que Deus vos atenda. Ofereço minha vida para os que se submetem ao bispo, aos presbíteros e aos diáconos. Possa eu, com eles, ter parte em Deus. Trabalhai uns com os outros e, unidos, combatei, lutai, sofrei, dormi, despertai, como administradores, assessores e servidores de Deus”[8]

 

-Inácio aos Efésios:

 

“Possa eu encontrar sempre a minha alegria em vós, caso eu seja digno disso. É preciso glorificar de todos os modos a Jesus Cristo, que vos glorificou, a fim de que, reunidos na mesma obediência, submetidos ao bispo e ao presbítero, sejais santificados em todas as coisas”[9]

 

“Vós, amados, sede atentamente sujeitos ao bispo, e aos presbíteros e aos diáconos. Porque aquele que lhes é sujeito, é obediente a Cristo que os ordenou; mas aquele que lhes é desobediente, é desobediente a Cristo Jesus”[10]

 

“Não cedais, irmãos, na fé em Jesus Cristo, e em Seu amor, em Seu sofrimento, e em Sua ressurreição. Sigamos todos juntos em comunhão, e individualmente, pela graça, em uma só fé em Deus o Pai, e em Jesus Cristo Seu unigênito Filho, e ‘o primogênito de toda a criação’, mas da semente de Davi conforme a carne, mantendo-nos sob a orientação do Consolador, em obediência ao bispo e ao presbitério com mente não dividida, partindo um e o mesmo pão”[11]

 

-Inácio aos Filadelfienses:

 

“Ele [Jesus] é minha alegria eterna e duradoura, sobretudo se os seus fiéis permanecerem unidos com o bispo, com os presbíteros e os diáconos que estão com ele, estabelecidos conforme o pensamento de Jesus Cristo, o qual, segundo sua própria vontade, os fortificou e confirmou com o seu Espírito Santo”[12]

 

“Alguns quiseram me enganar segundo a carne, mas não se engana o espírito que vem de Deus. De fato, ele sabe de onde vem e para onde vai, e revela os segredos. Estando no meio de vós, gritei, disse em alta voz, uma voz de Deus: Permanecei unidos ao bispo, ao presbitério e aos diáconos!”[13]

 

-Inácio aos Erminiotas:

 

“Segui todos ao bispo, como Jesus Cristo segue ao Pai, e ao presbitério como aos apóstolos; respeitai os diáconos como à lei de Deus”[14]

 

Como vemos, em todas as vezes Inácio menciona somente a submissão a três autoridades (cargos eclesiásticos) existentes na Igreja, sendo eles o de bispo, de presbíteros e de diáconos. Ele absolutamente nunca mencionou um Sumo Pontífice, o que obviamente seria uma autoridade eclesiástica e tanto que os cristãos deveriam prestar submissão, se realmente existisse um!

 

O fato de Inácio sempre em suas epístolas se reservar a mostrar submissão apenas aos três grupos, formados por diáconos (no plural), presbíteros (no plural) e ao bispo (no singular, por se tratar do bispo de cada igreja local) e sempre ignorar a suposta figura de um “bispo dos bispos”, “bispo universal” ou “Sumo Pontífice” que a Igreja Romana alega para o seu próprio bispo, nos demonstra claramente que Inácio não tinha qualquer noção de uma primazia jurisdicional universal de um bispo sobre todos os outros bispos, de um bispo maior, de um Sumo Pontífice. Isso é criação tardia da Igreja de Roma para si mesma.

 

Nunca foi crida por Inácio, que jamais fez menção a tal cargo ou função na Igreja, o que seria da maior importância caso realmente existisse! Vale ressaltar que na única vez em que Inácio fez menção a um “bispo de todos”, isto é, de um Sumo Pontífice, não foi para falar do bispo romano, mas de Jesus Cristo:

 

“Convém que não abuseis da idade do vosso bispo, mas, pelo poder de Deus Pai, lhe tributeis toda reverência. De fato, eu soube que vossos santos presbíteros não abusaram de sua evidente condição juvenil, mas, como gente sensata em Deus, se submetem a ele, não a ele, mas ao Pai do bispo de todos, Jesus Cristo[15]

 

Na verdade, a coisa fica ainda mais misteriosa quando vemos que, quando Inácio escreveu aos romanos, ele nem sequer fez menção do bispo dali! Convenhamos: se o bispo de Roma fosse não apenas um bispo como os demais, mas o bispo dos bispos, o Sumo Pontífice da Cristandade, será que Inácio iria passar despercebido dessa tão grande autoridade na Igreja? É claro que não! O fato de Inácio nem sequer citar o bispo de Roma é somente uma consequência do fato de que tal bispo não era nem nunca foi superior a todos os demais bispos.

 

Ele cita o bispo local das outras igrejas sempre ao escrever a todas elas:

 

-O bispo de Éfeso é citado por ele na Carta aos Efésios treze vezes: 1:3 (duas vezes); 2:1; 2:2; 3:2; 4:1 (duas vezes); 5:1; 5:2 (duas vezes); 6:1 (duas vezes); 20:2.

 

-O bispo de Esmirna é citado por ele na Carta aos Erminiotas nove vezes: 8:1 (três vezes); 8:2 (duas vezes); 9:1 (três vezes); 12:2.

 

-O bispo de Filadélfia é citado por ele na Carta aos Filadelfienses oito vezes: 1:1; 3:2; 4:1; 7:1; 7:2; 8:1; 10:2; e mais uma vez na saudação.

 

-O bispo de Magnésia é citado por ele na Carta aos Magnésios doze vezes: 2:1 (duas vezes); 3:1 (duas vezes); 3:2; 4:1; 6:1; 6:2; 7:1; 13:1; 13:2; 15:1.

 

-O bispo de Trália é citado por ele na Carta aos Tralianos nove vezes: 1:1; 2:1; 2:2; 3:1; 3:2; 7:1; 7:2; 12:2; 13:2.

 

Como vemos, ele costumava citar muitas vezes os bispos locais de cada cidade para quem ele escrevia, dizendo que os membros daquela igreja lhe deviam submissão e reconhecendo a autoridade daquele bispo local. Isso aconteceu diversas vezes em todas as epístolas que Inácio escreveu às outras igrejas, mas quando escreve aos romanos, que teoricamente teriam o maior de todos os bispos, o Sumo Pontífice, o bispo dos bispos, o bispo universal, o chefe de toda a Igreja apostólica... ele não o menciona nem uma única vez em toda a carta!

 

A palavra “bispo” aparece duas vezes na epístola dele aos romanos, mas nunca para se referir ao próprio bispo de Roma. Em 2:2 ela é uma referência ao bispo da Síria, e em 9:1 ela se refere ao próprio Inácio de Antioquia, falando de sua igreja local, onde humildemente diz que, “em meu lugar, tem somente Deus por pastor”[16]. Portanto, vemos que, em vez de dizer que os romanos tinham o privilégio de ter como bispo o “bispo dos bispos” e “Sumo Pontífice” da Igreja de Cristo, ele não o menciona nem uma única vez, mas menciona diversas vezes bispos que seriam “inferiores” ao romano (na visão católica) em suas epístolas às outras igrejas locais.

 

Como pode Inácio sempre se lembrar de mencionar inúmeras vezes a autoridade dos bispos locais das outras igrejas, mas nunca fazer menção à autoridade superior de toda a Igreja, que seria a de um Sumo Pontífice romano, nem mesmo na própria epístola aos romanos?

 

A resposta é óbvia: o bispo de Roma não era Sumo Pontífice coisa nenhuma!

 

Inácio não reconhecia nenhuma autoridade universal de um bispo romano, razão pela qual vemos ele dizendo aos romanos que Roma presidia sobre Roma, e não universalmente:

 

“Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja que recebeu a misericórdia, por meio da magnificência do Pai Altíssimo e de Jesus Cristo, seu Filho único; à Igreja amada e iluminada pela bondade daquele que quis todas as coisas que existem, segundo fé e amor dela por Jesus Cristo, nosso Deus; à Igreja que preside na região dos romanos, digna de Deus, digna de honra, digna de ser chamada feliz, digna de louvor, digna de sucesso, digna de pureza, que preside no amor, que porta a lei de Cristo, que porta o nome do Pai; eu a saúdo em nome de Jesus Cristo, o Filho do Pai”[17]

 

Inácio diz que aquela igreja, a quem ele escrevia, presidia. Se você perguntar aos romanistas, eles dirão que Roma presidia universalmente, pois defendem a tese do primado universal do bispo de Roma. Porém, Inácio esmaga essa teoria ao dizer que Roma presidia na região dos romanos. Em outras palavras, a jurisdição de Roma se limitava ao próprio território romano, não se estendia ao mundo inteiro, como pretendem os papistas. Inácio destrói a tese romana com uma simples frase!

 

Ademais, ao invés de dizer que Roma presidia universalmente em autoridade eclesiástica, ele afirma que ela presidia “no amor”. Convenhamos: será que Inácio iria perder a oportunidade de ressaltar a suposta primazia universal autoritativa dos romanos, caso eles realmente a detivessem? É claro que não! Porém, Inácio nada diz sobre primazia jurisdicional. Ele realmente não tinha a menor ideia de uma jurisdição universal, mas cria que Roma se limitava a presidir sobre Roma!

 

Alguns católicos teimam em dizer que Inácio reconhecia a autoridade “universal” do bispo de Roma porque ele elogiou bastante os romanos em sua carta. Será que isso é realmente um argumento? Se esse argumento tivesse que ser levado a sério, deveríamos fazer o mesmo com a Igreja de Éfeso, já que ele elogiou muito mais os efésios do que os próprios romanos:

 

“Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja que foi grandemente abençoada com a plenitude de Deus Pai, predestinada antes dos séculos para existir sempre, para uma glória que não passa, inabalavelmente unida, escolhida na paixão verdadeira, pela vontade do Pai e de Jesus Cristo, nosso Deus. À Igreja digna de ser chamada feliz, que está em Éfeso, na Ásia, as melhores saudações em Jesus Cristo e numa alegria irrepreensível. Acolhi em Deus vosso amadíssimo nome, que adquiristes por justo título natural, segundo a fé e o amor em Cristo Jesus, nosso Salvador. Imitadores que sois de Deus, reanimados pelo sangue de Deus, realizastes até o fim a obra que convém à vossa natureza”[18]

 

Inácio diz que a Igreja de Éfeso era grandemente abençoada por Deus, que foi predestinada eternamente, que tinha uma glória eterna, que era unida, apaixonada por Deus, digna, amada, enfim, encheu a bola dos efésios. E depois disse que ele encontrava neles (nos efésios) a sua alegria, que eles eram glorificados e santificados:

 

“Possa eu encontrar sempre a minha alegria em vós, caso eu seja digno disso. É preciso glorificar de todos os modos a Jesus Cristo, que vos glorificou, a fim de que, reunidos na mesma obediência, submetidos ao bispo e ao presbítero, sejais santificados em todas as coisas”[19]

 

Fora isso, ele declara também que era “vítima expiatória” dos efésios, que se oferecia em sacrifício por eles, que eles eram uma igreja formosa pelos séculos, e que desejava ressuscitar para se encontrar com os cristãos de Éfeso:

 

“Sou vossa vítima expiatória, e me ofereço em sacrifício por vós, efésios, Igreja famosa pelos séculos”[20]

 

“Fora dele, nada tenha valor para vós. Eu carrego as correntes por causa dele. São as pérolas espirituais com as quais eu gostaria que me fosse dado ressuscitar, graças à vossa oração. Desta desejo sempre participar para me encontrar na herança dos cristãos de Éfeso, que estão sempre unidos aos apóstolos pela força de Jesus Cristo”[21]

 

Algo semelhante fez Cirilo de Alexandria em seu discurso pronunciado no Concílio de Éfeso:

 

“Salve, cidade de Éfeso, mais formosa que os mares, porque em vez dos portos da terra, marcaram encontro em ti os que são portos do céu! Salve, honra desta região asiática semeada por todos os lados de templos, como preciosas jóias, e consagrada, no presente, pelos benditos pés de muitos santos Padres e Patriarcas!Com sua vinda, cumularam-te de toda bênção, porque onde eles se congregam, aumenta e multiplica-se a santidade: religiosos fiéis, anjos da terra, afugentam eles, com sua presença, todo satânico poder e toda afeição pagã. Eles, repetimos, confundem toda heresia e são glórias de nossa fé ortodoxa”[22]

 

Por fim, é digno de nota que, para Inácio, a Igreja cristã não havia sido fundada em Roma, mas na Síria, mais especificamente na cidade de Antioquia, onde os discípulos foram pela primeira vez chamados “cristãos”:

 

“Devemos, portanto, provar a nós mesmos que merecemos o nome que recebemos (=cristãos). Quem é chamado por outro nome além deste não é de Deus, pois não recebeu a profecia que nos fala a respeito disso: ‘O povo será chamado por um novo nome, pelo qual o Senhor os chamará, e serão um povo santo’. Isto se cumpriu primeiramente na Síria, pois ‘os discípulos eram chamados de cristãos em Antioquia’, quando Paulo e Pedro estabeleciam as fundações da Igreja. Abandonai, pois, a maldade, o passado, as influências viciadas e sereis transformados no novo instrumento da graça. Permanecei em Cristo e o estranho não obterá o domínio sobre vós”[23]

 

Portanto, torna-se indiscutível que Inácio jamais reconheceu uma autoridade universal do bispo de Roma, mas, ao contrário, cria que os romanos presidiam “na região dos romanos”, e não “no mundo inteiro”, e que foi na Síria que a Igreja foi “fundada”. Os elogios que ele fez aos romanos de modo nenhum induzem algum tipo de primazia deles, porque ele elogiou muito mais os efésios, e nenhum católico crê que a Igreja de Éfeso dividia a “primazia universal” com a Igreja de Roma sobre todas as demais. O próprio Inácio foi considerado “o mais abençoado bispo da Igreja apostólica”[24] pelos de sua época. Onde estava o papa de Roma?

 

 

Clemente, Policarpo e Irineu

 

Para os católicos, a carta que Clemente (35 – 97 d.C), bispo de Roma, escreveu aos coríntios em torno de 95 d.C é uma “prova” de que ele exercia liderança sobre a Igreja de Corinto. Nada mais longe da verdade, visto que era muito comum os bispos daquela época exortarem os de outras comunidades cristãs, como fez Inácio de Antioquia com outras seis igrejas, incluindo a romana, e como por essa mesma época fez Policarpo (69 – 155 d.C), bispo de Esmirna, que escreveu uma epístola aos filipenses, também demonstrando grande autoridade.

 

O próprio apóstolo Paulo fez isso diversas vezes, incluindo duas vezes aos próprios coríntios e uma carta aos romanos. Se exortar outras comunidades cristãs fosse sinal de autoridade sobre elas, então Paulo era papa, porque ele escreveu à Igreja de Roma, e o mesmo deveria ser concedido igualmente a todos os outros que uma vez fizeram o mesmo a outras comunidades cristãs que não eram de sua jurisdição. Teríamos dezenas de “papas” reinando simultaneamente, por este ponto de vista.

 

Paulo escrevia a outras igrejas com tanta autoridade ao ponto de ser o único apóstolo que passava mandamentos (1Co.7:10; 1Co.14:37,38), e dizia que aquele que não obedecesse às suas cartas deveria ser marcado e ninguém  poderia se associar com ele, para que ficasse envergonhado (2Ts.3:14). Além disso, Clemente em momento nenhum diz estar escrevendo como papa ou como uma autoridade superior a deles. Muito pelo contrário, o que vemos muitas vezes é Clemente afirmando que Cristo é o nosso único Sumo Pontífice[25], ao invés de dizer que ele mesmo era um Sumo Pontífice terreno.

 

O mesmo podemos dizer do que eles afirmam em torno de Irineu (130 – 202 d.C), bispo de Lyon, que escreveu dizendo que a Igreja situada em Roma era a “maior e mais antiga igreja conhecida por todos”[26], o que em nada significa que ela detinha uma primazia jurisdicional que se estendia a todas as demais igrejas, mas simplesmente que naquele momento que ele escrevia ela era a maior em tamanho, pois ficava na capital do império romano, que dominava o mundo da época, era onde se concentrava o maior número de cristãos àquela altura e “a mais antiga”, porque Jerusalém (que era a primeira e a que inicialmente tinha a maior concentração de convertidos) já havia sido destruída pelos romanos em 70 d.C.[27]

 

O próprio Irineu não aceitava a ideia de uma jurisdição universal do bispo de Roma, o que pode ser comprovado facilmente através da controvérsia da páscoa, em que Irineu rejeita a tradição do bispo romano. Nas palavras de Samuelle Bacchiocchi:

 

“Por um lado, o Bispo Vitor de Roma (189-99 A.D.) liderou o costume do Domingo de Páscoa (isto é, a celebração da festa no domingo geralmente seguinte à data da páscoa judaica) e ameaçou excomungar as comunidades cristãs recalcitrantes da província da Ásia que se recusavam a seguir suas instruções. Por outro lado, Polícrates, bispo de Éfeso e representante das igrejas da Ásia, fortemente advogou a data tradicional da páscoa judaica de 14 de Nisã, comumente chamada ‘Páscoa Quartodecimana’. Polícrates, reivindicando possuir a genuína tradição apostólica transmitida à ele pelos apóstolos Filipe e João, recusou amedrontar-se em sua missão às ameaças de Vitor de Roma”[28]

 

Irineu interveio como mediador e, nas palavras de Eusébio de Cesareia, “também restam as expressões que empregaram para pressionar com grande severidade a Vitor. Entre eles também estava Irineu”[29].

 

Hans van Campenhausen definiu a questão nas seguintes palavras:

 

“Quando Vítor de Roma aceitou ser persuadido a romper relações eclesiásticas com as igrejas da Ásia Menor, por causa das diferenças duradouras sobre a festa da Páscoa, Irineu lhe escreveu uma vigorosa carta na qual condenava esta ação ditatorial de uma maneira conveniente”[30]

 

Tentando impor a sua decisão, o bispo de Roma quis excomungar os bispos de todas as igrejas que eram contrárias a ele. Se ele fosse mesmo o “bispo dos bispos” e o “bispo universal”, ele certamente teria esse direito, e sua decisão seria levada adiante, queiram os outros bispos ou não. Mas o que realmente aconteceu, nas palavras de Eusébio, foi isso:

 

“Ante isto, Victor, que presidia a igreja de Roma, tentou separar em massa da união comum todas as comunidades da Ásia e as igrejas limítrofes, alegando que eram heterodoxas, e publicou uma condenação por meio de cartas proclamando que todos os irmãos daquela região, sem exceção, estavam excomungados. Mas esta medida não agradou a todos os bispos, que por sua parte exorta­vam-no a ter em conta a paz e a união e a caridade para com o próximo. Conservam-se inclusive as palavras destes, que repreendem Victor com bastante energia[31]

 

Ao invés de Victor conseguir excomungar todos os bispos que eram contrários a ele, o que ele conseguiria se fosse o Sumo Pontífice e bispo universal acima de todos os demais bispos, foram os outros bispos que repreenderam Victor com bastante energia. Essa é a prova mais forte de que o bispo de Roma estava no mesmo patamar de autoridade de todos os outros bispos, pois se ele fosse superior aos outros não seria repreendido por eles; ao contrário, teria a sua decisão aceita, pois seria o primaz, o maior de todos os bispos, cuja autoridade deveria ser obedecida em qualquer discussão.

 

Além disso, vemos que “essa medida não agradou a todos os bispos”, o que passa claramente a ideia de que a decisão do bispo romano não era autoritativa suficiente para decidir a questão por si mesmo, mas que ele precisava da aprovação de todos os outros bispos, pois não detinha uma autoridade acima da deles. Se ele fosse o papa infalível, bispo dos bispos e Sumo Pontífice universal, sua decisão deveria ser acatada por todos os outros bispos “inferiores” queiram eles ou não, mas o episódio deixa nítida a noção de que não existia uma supremacia do bispo de Roma sobre todos os demais.

 

Algo muito semelhante ocorreu com Policarpo. Em 155 d.C, esse bispo de Esmirna, já idoso, teve algumas desavenças com o bispo de Roma, Aniceto, sobre o dia da celebração da páscoa. Se Aniceto fosse o bispo universal, supremo em relação a todos os outros bispos (incluindo o próprio Policarpo), é óbvio que a decisão dele deveria ser aceita. Mas o que ocorreu foi justamente o inverso:

 

“E encontrando-se em Roma o bem-aventurado Policarpo nos tempos de Aniceto, surgiram entre os dois pequenas divergências, mas em seguida estavam em paz, sem que sobre este capítulo se querelassem mutuamente, porque nem Aniceto podia convencer Policarpo a não observar o dia - como sempre o havia observado, com João, discípulo de nosso Senhor, e com os demais apóstolos com quem conviveu -, nem tampouco Policarpo convenceu Aniceto a observá-lo, pois este dizia que devia manter o cos­tume dos presbíteros seus antecessores. E apesar de estarem assim as coisas, mutuamente comunicavam entre si, e na igreja Aniceto cedeu a Policarpo a celebração da eucaristia, evidentemente por deferência, e em paz se separaram um do outro; e toda a Igreja tinha paz, tanto os que observavam o dia como os que não o observavam”[32]

 

No fim das contas, Eusébio diz que “Aniceto cedeu a Policarpo”, isto é, que o bispo de Roma se sujeitou ao de Esmirna, e não o contrário. É certo que essa divergência entre Aniceto e Policarpo foi muito menor e menos grave do que a entre Victor e Irineu, mas ambos os casos nos mostram claramente que os bispos de Roma careciam de autoridade para impor alguma prática ao resto da Igreja.

 

Na obra “O Bispo de Roma”, bispo Kaye comenta sobre estes acontecimentos nas seguintes palavras:

 

“Nossa mais antiga familiaridade com aquela Sé nos apresenta com a autoridade superior de Policarpo, na própria Roma, em manter a doutrina apostólica e suprimindo heresia (...) Aniceto era um piedoso prelado que nunca sonhou em declarar um clamor superior como o chefe depositário da ortodoxia apostólica, e cujo belo exemplo nas questões pascoalinas discutidas entre Policarpo e si mesmo, é uma outra ilustração da independência das igrejas irmãs, naquele período. Nem é indigno de notar, que o próximo evento, na história ocidental, estabelece um princípio similar contra aquele outro menos digno ocupante da Sé Romana, de quem temos falado. Irineu repreende Vítor por seu dogmatismo sobre a Páscoa, e o reprova partindo do exemplo de seus predecessores na mesma Sé[33]

 

Todos estes testemunhos primitivos entram em direto contraste com aquilo que o papa Pio X disse na encíclica “Como amar o Papa”, de 18 de Novembro de 1912, dizendo que “não se discute sobre o que ele manda ou exige”, que “não se objeta a ele”, que “não se põem em dúvidas as suas ordens” e que não se pode omitir opiniões que “diferem da opinião do papa”:

 

“É por isso que, quando se ama ao Papa, não se fica a discutir sobre o que ele manda ou exige, a procurar até onde vai o dever rigoroso da obediência, e a marcar o limite desta obrigação. Quando se ama o Papa, não se objeta que ele não falou muito claramente, como se ele estivesse obrigado a repetir diretamente no ouvido de  cada um sua vontade e de exprimi-la não somente de viva voz, mas cada vez por cartas e outros documentos públicos. Não se põem em dúvida suas ordens, sob fácil pretexto, para quem não quer obedecer, de que elas não dimanam diretamente dele, mas dos que o rodeiam!  Não se limita o campo onde ele pode e deve exercer sua autoridade; não se opõe à autoridade do Papa a de outras pessoas, por muito doutas que elas sejam, que diferem da opinião com o Papa. Por outro parte, seja qual for sua ciência, falta-lhes santidade, pois não poderia haver santidade onde há dissentimento com o Papa"[34]

 

Ele deveria explicar isso a Policarpo, que não cedeu ao bispo romano Aniceto, a Irineu e os demais bispos que “repreenderam Victor com bastante energia” e rejeitaram a excomunhão dos bispos que ele tinha ordenado excomungar, ao apóstolo Paulo que repreendeu Pedro em Antioquia e lhe resistiu na cara porque era repreensível (Gl.2:11), e a tantos outros casos que mostraremos mais adiante.

 

 

Tertuliano e Clemente de Alexandria

 

Tertuliano (160 – 220 d.C) foi o maior teólogo dos primeiros duzentos anos da Igreja cristã, e é muito usado pelos católicos em muitos livros e artigos. O que eles deveriam saber é que ele nunca reconheceu um primado do bispo de Roma, razão pela qual escreveu em sua obra “Contra Práxeas” que o bispo de Roma importunadamente fez falsas acusações contra os profetas e suas igrejas e o chamou implicitamente de “diabo”:

 

“Pois depois que o Bispo de Roma concordou com as dádivas proféticas de Montano, Priscila e Maximilla, e em consequência à concordância, tendo concedido sua paz às igrejas da Ásia e Frígia, ele, importunadamente urgindo falsas acusações contra os próprios profetas e suas igrejas, e insistindo na autoridade dos predecessores dos bispos na sé, o compeliu a revogar as cartas pacíficas que ele tinha enviado, bem como desistir de seu propósito de concordar com as ditas dádivas. Assim este Práxeas fez um duplo serviço para o diabo em Roma: ele afugentou a profecia, e introduziu a heresia; ela afastou o Espírito e crucificou o Pai”[35]

 

Essas fortes acusações de Tertuliano ao bispo de Roma contêm um fundo histórico que foi comentado pelo bispo Kaye:

 

“Vítor ‘admitiu os dons proféticos de Montanus’, e manteve comunhão com as igrejas Frígias que os adotaram: mas pior que isto, ele agora parece apadrinhar a heresia patripassionista, sob a compulsão de Práxeas. Isto Tertuliano diz, quem certamente não tinha nenhuma idéia de que o Bispo de Roma era o infalível juiz de controvérsias, quando ele lembrou os fatos desta estranha história. Assim, nós descobrimos o próprio fundador do ‘Cristianismo Latino’, acusando um contemporâneo Bispo de Roma de heresia e apadrinhamento de heresia[36]

 

Clemente de Alexandria (150 – 215 d.C) também não tinha qualquer ideia de um primado do bispo romano, razão pela qual ele diz que Pedro, Tiago (o discípulo) e João não tomaram para si a honra de se tornarem bispos de Jerusalém, mas elegeram Tiago (irmão do Senhor, conhecido como “o Justo”):

 

“Porque -dizem - depois da ascensão do Salvador, Pedro, Tiago e João, mesmo tendo sido os preferidos do Salvador, não tomaram para si esta honra, mas elegeram como bispo de Jerusalém Tiago o Justo”[37]

 

Se fosse Roma a principal diocese cristã do século I, Clemente não diria que a maior honra caberia a Tiago como bispo de Jerusalém, mas que a maior honra caberia a Pedro como bispo de Roma. Contudo, ele diz que nem mesmo Pedro “tomou a honra” de se tornar bispo de Jerusalém, o que só pode significar que a cidade onde Pedro se tornou bispo não era tão importante quanto a de Tiago. Em nenhuma vez vemos um concílio todo se reunindo para definir quem será o próximo bispo de Roma, mas vemos isso acontecendo quando se trata do bispo de Jerusalém, por ser a sede mais importante do Cristianismo naquela época, até a sua destruição em 70 d.C pelos romanos:

 

“Depois do martírio de Tiago e da tomada de Jerusalém, que se seguiu ime­diatamente, é tradição que os apóstolos e discípulos do Senhor que ainda viviam reuniram-se de todas as partes num mesmo lugar, junto com os que eram da família do Senhor segundo a carne (pois muitos deles ainda viviam), e todos celebraram um conselho sobre quem seria considerado digno de suceder a Tiago, e todos, por unanimidade, decidiram que Simeão era digno do trono daquela igreja”[38]

 

 

Cipriano

 

Cipriano (200 – 258 d.C) foi um importante bispo de Cartago, na África. Ele presidiu o Concílio de Cartago que ocorreu no ano 255, onde disse:

 

“Pois nenhum de nós coloca-se como um bispo de bispos, nem por terror tirânico alguém força seu colega à obediência obrigatória; visto que cada bispo, de acordo com a permissão de sua liberdade e poder, tem seu próprio direito de julgamento, e não pode ser julgado por outro mais do que ele mesmo pode julgar um outro. Mas esperemos todos o julgamento de nosso Senhor Jesus Cristo, que é o único que tem o poder de nos designar no governo de Sua Igreja, e de nos julgar em nossa conduta nela”[39]

 

Não há a menor ideia da primazia de um bispo, seja ele quem for, sobre todos os demais. Cipriano diz explicitamente que não existia um bispo dos bispos, que cada bispo tem sua própria autoridade e que não pode ser julgado por outro mais do que ele mesmo pode julgar um outro. Isso é um verdadeiro golpe de morte na teologia romana que afirma que o bispo romano tinha mais autoridade que os demais bispos locais e podia julgá-los!

 

E ao invés de apontar um suposto Sumo Pontífice em Roma que liderasse sobre todos os demais, ele afirma que é o Senhor Jesus Cristo o único que tem o poder de governar a Igreja com autoridade superior a todos. Não era a visão de um Sumo Pontífice no Céu e outro na terra, mas somente de um que está no Céu – Jesus Cristo. Curiosamente, algum tempo mais tarde se reuniu um outro concílio em Cartago, quando o bispo romano estava tentando usurpar o poder dos bispos locais, colocando-se acima deles, e ficou decidido que:

 

“Igualmente decidimos que os Presbíteros, Diáconos e outros Clérigos inferiores, nas causas que surgirem, se não quiserem se conformar com a sentença dos bispos locais, recorram aos bispos vizinhos, e com eles terminem qualquer questão... E que, se ainda não se julgarem satisfeitos e quiserem apelar, não apelem senão para os Concílios Africanos, ou para os Primazes das próprias Províncias: - e que, se alguém apelar para a Sé Transmarina (de Roma) não seja mais recebido na comunhão[40]

 

Não somente Roma não é vista como uma autoridade superior a todas as demais igrejas, como também é nos declarado que aqueles que apelassem para Roma deveriam ser excomungados da Igreja! Os bispos vizinhos (locais) e os concílios africanos tinham a mesma autoridade de Roma, não havia uma autoridade superior da Sé Romana sobre as demais dioceses.

 

Cipriano também chamou posteriormente o bispo Estêvão, de Roma, de “amigo de hereges e inimigo dos cristãos”:

 

“Dá gloria a Deus quem, sendo amigo de hereges e inimigo dos cristãos, acha que os sacerdotes de Deus que suportam a verdade de Cristo e a unidade da Igreja, devem ser excomungados?”[41]

 

Estêvão tinha uma divergência com Cipriano sobre a necessidade de rebatismo para os hereges. Mais uma vez, não vemos Cipriano se dobrando diante da decisão do bispo de Roma, mas o vemos rejeitando com tanta veemência ao ponto de chamá-lo de herege e inimigo dos cristãos, além de reunir o Concílio de Cartago (que acabamos de conferir), onde ele não apenas rejeita a intervenção de Estêvão, como também diz que não existe ninguém que seja “bispo dos bispos” (como os católicos declaram com relação ao papa) que possa dar ordens aos demais bispos, mas afirma que cada um dos bispos, em todas as dioceses cristãs, tem seu próprio direito de julgamento, liberdade e poder, sem poder ser julgado por nenhum outro mais do que ele mesmo pode julgar um outro.

 

Em outras palavras, a autoridade de todos os bispos era rigorosamente a mesma. Não existia ninguém que tivesse uma autoridade maior do que os demais para julgá-los ou dá-los ordens. Não existia um “bispo universal” ou “bispo dos bispos” na Igreja. Tais títulos soberbos e orgulhosos foram fruto da ambição de poder, temporal e espiritual, dos bispos de Roma, séculos mais tarde. 

 

Cipriano escreve aqui exatamente para condenar as decisões de Estêvão, bispo de Roma na época. Portanto, ele não cria que Estêvão tivesse uma autoridade maior do que a dele próprio ou a de qualquer outro bispo, não cria que o bispo de Roma fosse bispo universal ou bispo dos bispos, nem que tivesse que receber ordens daquele a quem ele próprio chamava de “amigo de hereges e inimigo dos cristãos”.

 

Alguém poderia ainda alegar que o fato de Cipriano ter dito que o bispo de Roma é sucessor de Pedro significa que ele cria em primazia do bispo romano. Duas coisas devem ser consideradas aqui. Primeiro, que eles criam que praticamente todas as dioceses cristãs foram fundadas por apóstolos. A Igreja de Antioquia, por exemplo, também teria sido fundada por Pedro, o que não implica de modo nenhum em alguma primazia dessa igreja local sobre todas as demais.

 

Se Roma devesse ser considerada a primaz por Pedro ter sido bispo de lá na visão católica, então por que Antioquia também não deveria ser primaz, já que, pela tradição, Pedro foi bispo de Antioquia? Dois pesos, duas medidas. Ou Roma e Alexandria dividem o primado por causa de Pedro, ou que vá para o lixo este argumento.

 

Segundo, que Cipriano cria que todos os bispos eram sucessores de Pedro, não apenas o bispo de Roma. Podemos ver isto na introdução de sua Epístola 33:

 

“Nosso Senhor, cujos preceitos e admoestações nós devemos observar, descrevendo a honra de um bispo e a ordem de sua Igreja, fala no Evangelho dizendo a Pedro: ‘Eu te digo, Tu és Pedro, e sobre esta pedra eu edificarei minha Igreja; e os portões do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus, o que for que você ligar na terra será ligado no céu e o que for que você desligar na terra será desligado no céu’. Por isto, através das mudanças dos tempos e sucessões, a ordenação de bispos e o plano da Igreja continuam fluindo, de forma que a Igreja é fundada sobre os bispos, e cada ato da Igreja é controlado por estes mesmos governantes[42]

 

Note que, para Cipriano, a Igreja não está fundada sobre o bispo de Roma somente, ou sobre Pedro unicamente, mas “sobre os bispos”. Não sobre um bispo em específico, muito menos sobre o bispo de Roma! São os bispos que governam a Igreja e fazem com que a sucessão dos bispos continue existindo. Para Cipriano, Pedro é um representante de todo o episcopado, e não de apenas um bispo em especial. E este episcopado é representado por cada bispo de cada igreja (não somente pelo bispo romano), como ele esclarece em “Da Unidade da Igreja”:

 

“E esta unidade nós devemos firmemente manter e declarar, especialmente aqueles de nós que somos bispos que presidem na Igreja, para que nós também possamos provar que o próprio episcopado é uno e indiviso. Que ninguém engane a irmandade com uma falsidade, que ninguém corrompa a verdade da fé com prevaricações perfidiosas. O episcopado é uno, cada parte do qual é mantido por cada um para o todo[43]

 

Na epístola 66, Cipriano também traz estas palavras: 

 

“Pedro fala ali, sobre quem a Igreja foi construída, ensinando e mostrando em nome da Igreja, que apesar de uma multidão rebelde e arrogante daqueles que não ouvem e obedecem podem se separar, a Igreja não se afasta de Cristo; e eles são a Igreja que é o povo unido ao sacerdote e o rebanho unido ao pastor. De onde você deve saber que o bispo está na Igreja e a Igreja no Bispo; e se alguém não estiver com o bispo, ele não está na igreja, e que se bajulam em vão aqueles que se esgueiram, não tendo paz com os sacerdotes de Deus, pensando estar comunicando secretamente com alguns; enquanto que a Igreja, que é Católica e una, não é cortada ou dividida, mas é de fato conectada e ligada pelo cimento dos sacerdotes que coerem uns com os outros”[44] 

 

Pedro aqui representa os bispos, e não o bispo de Roma exclusivamente. É a submissão ao bispo local o critério para a filiação à Igreja, e não ao bispo de Roma. O “cimento dos sacerdotes” é a coerência e união entre os bispos locais, e não um governo central localizado em Roma e governado por um único bispo.

 

Para conciliar a tese do primado do bispo romano com tantas evidências que deixam claro que Cipriano jamais creu nisso, alguns católicos adulteraram os escritos de Cipriano com citações falsas ou com traduções manipuladas. Tal é o caso da epístola de Cipriano “Da Unidade da Igreja”[45] e das famosas frases de que “os romanos não podem errar na fé” e que “Roma é a matriz e trono da Igreja Católica”[46].

 

A primeira é uma tradução mal feita do original e a segunda é uma interpolação que é fruto de uma adulteração vergonhosa no texto de Cipriano, que sequer usou a palavra “Roma” ou “trono” naquela citação. Sobre todos estes textos, o leitor poderá encontrar informação mais detalhada em meus sites, nos respectivos artigos que estarão na nota de rodapé deste livro. 

 

 

Jerônimo

 

Alguns católicos se utilizam dos escritos de Jerônimo para apoiar a tese do primado jurisdicional da Igreja de Roma. É verdade que muitas vezes Jerônimo colocava o bispo de Roma em um patamar de honra e autoridade na Igreja, mas não é verdade que ele o classificava como estando acima dos demais. Como podemos ter certeza disso? Simplesmente porque Jerônimo considerava os outros bispos também como “papas”, e vai além e diz ao bispo de Alexandria que ele era “o mais abençoado papa” da Igreja: 

 

”Jerônimo para o mais abençoado papa Teófilo [Alexandria]”[47] 

 

Isso prova que ele não considerava o bispo de Roma como sendo o único “papa”, mas considerava em igualdade todos os bispos, como merecedores deste título. Ademais, será que pelo fato de que ele disse que Teófilo, bispo de Alexandria, era “o mais abençoado papa”, significa que ele estava em um patamar de superioridade em relação a todos os outros bispos, que era infalível em ex cathedra ou que era um “bispo dos bispos”? É claro que não.  

 

Se isso vale para Teófilo, por que razão deveria ser diferente com o bispo romano? De fato, se Jerônimo cresse que o bispo romano fosse a cabeça de toda a Igreja e estivesse em um patamar autoritativo de superioridade em relação a todos os outros bispos, ele não teria escrito que Teófilo era o papa mais abençoado da Igreja, pois o maior seria o próprio bispo de Roma. Porém, Jerônimo vai além e diz ao bispo de Alexandria: 

 

“Jerônimo, para o mais abençoado papa, Teófilo. A letra da sua santidade me deu um duplo prazer, em parte porque pelo o que ela trouxe aos seus portadores, os estimáveis homens, bispo Ágato e diácono Atanásio, e em parte porque tem mostrado o seu zelo pela fé contra uma heresia das mais perversas. A voz da sua santidade tem tocado em todo o mundo, e para a alegria de todas as igrejas de Cristo as sugestões venenosos do diabo foram silenciadas (...) Ao mesmo tempo peço que se você tem qualquer influência sobre o assunto dos decretos sinodais, que você encaminhe a mim, para que, fortalecido com a autoridade de um prelado tão grande, eu possa abrir minha boca para Cristo com mais liberdade e confiança. O presbítero Vincent chegou de Roma há dois dias e o saúda humildemente. Ele me diz uma e outra vez que Roma e quase toda a Itália devem a sua libertação, depois de Cristo, às suas cartas. Prova de diligência, portanto, do mais amoroso e mais abençoado papa, e sempre que tiver oportunidade de escrever aos bispos do Ocidente não hesite em suas próprias palavras - para cortar com uma foice afiada os brotos do mal”[48] 

 

Ele não apenas chama Teófilo de “o papa mais abençoado", como também afirma que a voz dele tem ressoado pelo mundo inteiro, silenciando as sugestões venenosas do diabo. Como se não bastasse, ele reafirma também a “autoridade de um prelado tão grande” e declara que os próprios romanos deviam a sua libertação a este bispo de Alexandria, e não o contrário! No final, ele o chama de “o mais amoroso e mais abençoado papa”. Onde foi parar a tal “primazia” do bispo de Roma?  

 

Em outro momento, quando ele acusa as heresias de Orígenes, ele pede que uma carta seja enviada para ele e para o bispo de Constantinopla, mas não cita o bispo romano: 

 

“Uma carta sinodal deve ser enviada para mim e para o bispo de Constantinopla, e para quaisquer outros que você acha que se encaixam, expressando a condenação de Orígenes por consenso universal e condenando também a heresia infame, a qual ele era o autor”[49] 

 

O interessante é que ele diz que a condenação das heresias de Orígenes deveria ser um “consenso universal” na Igreja, e, de acordo com os católicos, o bispo de Roma era um “papa universal” que mandava em toda a Igreja com poderes plenos, supremos e absolutos. Portanto, o bispo de Roma deveria, por esta lógica, ser o primeiro a ser notificado destas coisas, o primeiro a receber as cartas sinodais a este respeito.  

 

Contudo, ele nem sequer aparece aqui. Jerônimo apenas faz referência à autoridade dele mesmo e do bispo de Constantinopla, mas não do bispo de Roma, que para os católicos teria autoridade para resolver tudo sozinho, pois seria supostamente o “bispo dos bispos”. Isso explica o porquê que Jerônimo não aceitava que o costume adotado em Roma servisse de padrão para todas as demais igrejas cristãs: 

 

“Mas você vai dizer: como, então, que em Roma um presbítero é ordenado apenas na recomendação de um diácono? Ao qual eu respondo como se segue. Por que você apresenta um costume que existe em uma única cidade? Por que você se opõe às leis da Igreja uma exceção insignificante que deu origem à arrogância e orgulho?[50]

 

Se Roma tivesse autoridade suprema e universal na Igreja, então ela que deveria impor os costumes e regras na Igreja, e não o contrário. Se a autoridade romana fosse universal (e não apenas sobre o território romano), então as medidas que ela adotaria deveriam ser adotadas em toda a Igreja.  

 

Porém, não apenas vemos que as demais comunidades cristãs da época não aceitavam nem adotavam o costume aceito pelos romanos, como também vemos Jerônimo se referindo a eles como sendo um “costume que existe em apenas uma única cidade”. Nota-se claramente aqui como que Jerônimo não cria que Roma tivesse um papel supremo e universal a tal altura. “Uma única cidade” mostra claramente que o poder de Roma não era extensivo sobre todas as demais igrejas locais. Roma era apenas “uma exceção”, não passava de “uma única cidade”, e não uma autoridade universal e infalível. É por isso que ele diz que aquilo era uma “exceção insignificante” que deu origem a “arrogância e orgulho”.  

 

Se Jerônimo cresse na primazia jurisdicional da Igreja Romana, não chamaria aquilo de “exceção insignificante”, pois seria da maior importância, visto que Roma supostamente seria a maior de todas as igrejas cristãs da época.  Porém, ele se opõe ao costume adotado em Roma e não considera que Roma tenha autoridade sobre todas as demais igrejas, mas a chama de “uma única cidade”, diz que era uma “exceção insignificante” e ainda afirma que aquilo conduzia à “arrogância e orgulho”! Como que Jerônimo cria na primazia romana?

 

Além disso, o mesmo afirma que era Policarpo o “chefe de toda a Ásia” em sua época: 

 

“Policarpo, discípulo do apóstolo João e por ele ordenado bispo de Esmirna era chefe de toda a Ásia, onde ele viu e teve como professores alguns dos apóstolos e das pessoas que tinham visto o Senhor”[51] 

 

Os católicos afirmam que o bispo romano tinha primazia universal, isto é, autoridade suprema sobre o mundo inteiro, sobre todas as igrejas cristãs locais (o que evidentemente incluiria a Ásia, é claro). No entanto, Jerônimo diz que era Policarpo, e não o bispo de Roma, o “chefe de toda a Ásia” em sua época, ou seja, aquele que tinha a maior autoridade naquela importante região, a tal altura. Portanto, a autoridade do bispo romano se limitava a Roma – não se estendia à Ásia, não era uma “primazia universal”! 

 

 

Eusébio e João Crisóstomo

 

Já comentamos neste livro diversas passagens do historiador da Igreja primitiva Eusébio (265 – 339 d.C), bispo de Cesareia, que nos diz que a pedra de Mateus 16:18 é a confissão de Pedro em Jesus, que Pedro nunca foi bispo de Roma, que narra os conflitos entre os bispos locais com os bispos de Roma e que nega a primazia jurisdicional do bispo romano. É interessante notar que, em seus dez livros que compõem sua famosa “História Eclesiástica”, nunca o vemos dizendo que a Igreja possui um Sumo Pontífice terreno, que seria o bispo de Roma, o “papa”.

 

Ao contrário, ele diz que o único Sumo Pontífice (=Sumo Sacerdote) de todo o Universo é Jesus Cristo:

 

“Além disso, a tradição nos faz saber igualmente que também alguns profetas foram convertidos em Cristos, figuradamente, por meio da unção com o óleo, de forma que todos estes fazem referência ao verdadeiro Cristo, o Verbo divino e celestial, único sumo Sacerdote do universo, único rei de toda a criação e, entre os profetas, único sumo Profeta do Pai”[52]

 

Convenhamos: Eusébio nunca fala de um Sumo Pontífice terreno, em todas as vezes que fala sobre um Sumo Pontífice aponta para Cristo[53], e ainda por cima diz que ele (Jesus) é o único Sumo Pontífice de todo o Universo. Será mesmo que ele cria que o bispo de Roma era um Sumo Pontífice? Lógico que não.

               

Além disso, ele chama de “papa” o bispo Heraclas, de Antioquia:

 

“Logo, depois de dizer algumas coisas sobre todas as heresias, acrescenta: ‘Eu recebi esta regra e este modelo de nosso bem-aventurado papa Heraclas’”[54]

 

Essa é a primeira vez que este título é concedido ao bispo de Alexandria. O bispo de Cartago, Cipriano, também recebia este título pelos presbíteros de Roma, mas o próprio bispo romano ainda tardaria em recebê-lo. Somente muitos séculos mais tarde, quando os bispos de Roma ambiciosos pelo poder temporal e espiritual sobre toda a Igreja quiseram usurpar a autoridade dos demais bispos, é que eles arrogaram para si mesmos o título de “papa” em exclusividade. É por isso que na Igreja Católica atual não se vê nenhum deles chamar algum bispo no Brasil, na África, na Ásia ou em qualquer outro lugar de “papa”, pois este título é conferido exclusivamente ao pontífice romano, como resultado de sua ambição e arrogância.

 

João Crisóstomo (347 – 407 d.C), por sua vez, foi além e disse ao bispo de Antioquia:

 

“Quando se trata de preeminências, aspirais ao primeiro lugar em toda a terra, por ter sido a vossa cidade [Antioquia] a primeira que se coroou com o nome de ‘cristão’”[55]

 

Como vemos, esse que tem “preeminência”, que aspira o “primeiro lugar” em toda a terra e que foi onde se coroou pela primeira vez com o nome “cristão” não é o bispo de Roma, mas o de Antioquia. Essa passagem choca-se frontalmente com aqueles que ensinam que a única proeminente é Roma, que estaria acima de todas as demais dioceses cristãs, liderando sobre elas. Se João Crisóstomo também tivesse este conceito, não teria dito que Antioquia aspirava o primeiro lugar em toda a terra, pois este “primeiro lugar” já estaria mais que definido que seria de Roma e de mais ninguém.

 

                                                                              

Gregório Magno

 

O bispo de Roma Gregório Magno (540 – 604 d.C) é o maior exemplo de um bispo romano que rejeitou o título de bispo universal por considerá-lo um “título de blasfêmia”, como fica claro em sua epístola a Maurício César:

 

“Os próprios mandamentos de nosso Senhor Jesus Cristo são transtornados pela invenção de uma certa orgulhosa e ostensiva frase, que seja o piedosíssimo senhor a cortar o lugar da chaga, e prenda o paciente remisso nas cadeias da augusta autoridade. Pois ao atar estas coisas justamente alivias a república; e, enquanto cortas estas coisas, provês o alargamento do teu reinado (...) O meu companheiro sacerdote João, pretende ser chamado bispo universal. Estou forçado a gritar e dizer: Oh tempos, oh costumes! (...) Os sacerdotes, que deveriam chorar jazendo no chão e em cinzas, buscam para si nomes de vanglória, e se gloriam em títulos novos e profanos (...) Quem é este que, contra as ordenanças evangélicas, contra os decretos dos cânones, ousa usurpar para si um novo nome? O teria se realmente por si mesmo fosse, se pudesse ser sem nenhuma diminuição dos outros – ele que cobiça ser universal (...) Se então qualquer um nessa Igreja toma para si esse nome, pelo qual se faz a cabeça de todo o bem, segue-se que a Igreja universal cai do seu pedestal (o que não permita Deus) quando aquele que é chamado universal cai. Mas longe dos corações cristãos esteja esse nome de blasfêmia, no qual é tirada a honra de todos os sacerdotes, no momento em que é loucamente arrogado para si por um só[56]

 

Nestas linhas vemos o bispo romano Gregório Magno afirmando que o título de “bispo universal”, que hoje é comumente usado pelos católicos para o papa, é na verdade:

 

1º Uma invenção orgulhosa.

 

2º Uma frase ostensiva.

 

3º Um alargamento do reinado, além daquilo que realmente possui.

 

4º Um nome de vanglória.

 

5º Um título novo e profano.

 

6º Uma usurpação.

 

7º Uma diminuição da autoridade dos outros bispos.

 

8º Um nome que faz com que toda a Igreja caia se esse “bispo universal” cair.

 

9º Um nome de blasfêmia.

 

10º Um nome que tira a honra dos outros sacerdotes.

 

Os católicos afirmam que Gregório Magno não condenou o título de “papa universal” para si próprio, mas condenou este título somente quando aplicado a João, bispo de Constantinopla, quando este queria se tornar o único “bispo dos bispos”. Porém, isso não é verdade. É fato que João, bispo de Constantinopla, queria usurpar este título e tomá-lo para si somente, em singularidade. Mas não é verdade que Gregório Magno tenha rejeitado este título somente ao bispo de Constantinopla, mas não para si mesmo, pois ele próprio afirmou:

 

“Agora eu digo com confiança que todo aquele que chama a si mesmo, ou deseja ser chamado, Sacerdote Universal, é em sua exaltação o precursor do Anticristo, porque ele orgulhosamente se coloca acima de todos. E pelo orgulho ele é levado ao erro, pois como perverso deseja aparecer acima de todos os homens. Por isso, todo aquele que ambiciona ser chamado único sacerdote, exalta-se acima de todos os outros sacerdotes[57]

 

Gregório Magno afirma categoricamente que “todo aquele” que se chama a si mesmo de “Sacerdote Universal” é o precursor do anticristo. Este “todo” obviamente não se refere somente ao bispo de Constantinopla. Ao contrário, Gregório estava estipulando um princípio universal – “todo aquele” se refere a todos os bispos, a qualquer um deles! Ele declara que este título, seja aplicado a quem quer que seja:

 

 É uma exaltação de um precursor do anticristo.

 

 É fruto do orgulho de quem se coloca acima dos demais.

 

 É um perverso que só quer aparecer acima de todos.

 

 Exalta-se acima de todos os outros sacerdotes.

 

Dá para perceber como que ele não era uma figura muito simpática ao título de “papa [ou bispo] universal”. Notem que, embora isso tenha começado por um bispo de Constantinopla, ele repete o “todo aquele” pelo menos duas vezes na citação acima. Era uma forma de reiterar com ainda mais força o fato de que qualquer bispo que seja, tomando o título de papa universal, torna-se um precursor do anticristo, pois seria um título soberbo e orgulhoso.

 

Curiosamente, os católicos afirmam que, por esta mesma época, o próprio Gregório Magno (bispo de Roma) seria um “bispo universal” ou “bispo dos bispos”! Ou seja, Gregório estaria chamando o título que ele mesmo possuiria como sendo um orgulho e um precursor do anticristo! Ele não condena o bispo de Constantinopla por estar se levantando contra Roma; ao contrário, ele o condena por estar se usurpando contra todos os bispos, por tomar este título soberbo. Foi por isso que ele disse:

 

“Que dirás tu João a Cristo que é cabeça da Igreja universal no prestar de contas no dia do juízo final? Tu que te esforças de te antepor a todos os teus irmãos bispos da Igreja universal e que com um título soberbo queres pôr debaixo dos teus pés o seu nome em comparação do teu? Que vais tu fazendo com isso, senão repetir com Satanás: Subirei ao céu e exaltarei o meu trono acima dos astros do céu de Deus? Vossa fraternidade quando despreza (os outros bispos) e faz todos os esforços possíveis para os subjugar, não faz senão repetir quanto já disse o velho inimigo: Me exaltarei acima das nuvens mais excelsas (...) Possa pois tua Santidade reconhecer quanto é grande o teu orgulho pretendendo um título que nenhum outro homem verdadeiramente pio jamais se arrogou[58]

 

Gregório diz aqui que somente Cristo é cabeça da Igreja Universal – não o papa – e declara também que se colocar como “bispo universal” seria tomar para si um título de soberba que o colocaria acima de todos os outros bispos da Igreja. Ele afirma que quem se coloca como bispo universal está repetindo com Satanás o mesmo orgulho que causou a sua queda, que seria fruto de uma exaltação indevida. Mas o mais importante é o que ele afirma logo em seguida: que nenhum outro homem jamais arrogou tal título para si.

 

Isso é uma refutação de peso para aqueles que pensam que tal título era pertencente em exclusividade aos bispos romanos desde séculos. Se nenhum outro homem jamais se colocou como bispo universal, então nem os próprios bispos romanos (nem o próprio Gregório) eram detentores de tal título. Se assim fosse, o texto ficaria sem sentido, ao dizer que nenhum outro homem verdadeiramente pio foi detentor de tal título, o que no mínimo seria dizer que os bispos romanos não eram “verdadeiramente pios”, pois supostamente detinham tal título!

 

Em outro momento, ele diz:

 

“Pois se um só, como ele supõe, é o bispo universal, isso implica que vocês não são bispos”[59]

 

Gregório afirma que colocar alguém como bispo universal implica em dizer que os demais não eram bispos. Em outras palavras, há aqui um quadro de causa e efeito. Quando alguém se coloca como bispo ou papa universal, necessariamente está rebaixando os demais bispos. Infelizmente, foi exatamente isso que os romanos fizeram mais tarde, e que, aliás, continuam fazendo até hoje. Eles não seguem as instruções do próprio Gregório, que disse:

 

“Vossa Bem-aventurança também foi cuidadoso em declarar que não faz agora uso de títulos orgulhosos, que brotam de uma raiz de vaidade, ao escrever a certas pessoas, e se dirige a mim dizendo, «Como tu o ordenaste». Esta palavra, ordenar, lhe rogo que a afaste dos meus ouvidos, já que sei quem sou eu e quem sois vós. Pois em posição sois meus irmãos, em caráter meus pais. Eu não ordenei, então, mas estava desejoso de indicar o que me parecia ser benéfico. Contudo, não acho que Vossa Bem-aventurança tenha estado disposto a recordar perfeitamente esta mesmíssima coisa que trago à sua memória. Pois eu disse que nem a mim nem a mais ninguém devia escrever alguma coisa do gênero; e eis que no prefácio da epístola que me dirigiu a mim que me recuso a aceitá-lo, considerou apropriado fazer uso de um apelido orgulhoso, chamando-me Papa Universal. Mas rogo à sua dulcíssima Santidade que não volte a fazer tal coisa, já que o que é concedido a outro para lá do que a razão exige é subtraído de você mesmo. Pois, quanto a mim, não busco ser prosperado por palavras, mas pela minha conduta. Nem considero uma honra aquilo pelo qual sei que meus irmãos perdem a honra deles. Pois a minha honra é a honra da Igreja universal; a minha honra é o sólido vigor dos meus irmãos. Então sou verdadeiramente honrado quando não é negada a eles a honra devida a todos e cada um. Pois se Vossa Santidade me chama a mim Papa Universal, nega que seja você o que me chama a mim universalmente. Mas longe esteja isto de nós. Fora com as palavras que inflam a vaidade e ferem a caridade[60]

 

Quando o bispo de Alexandria escreveu a Gregório dizendo que este havia “ordenado” algo a ele, Gregório prontamente rejeita tal atitude, pois reconhecia que ele não estava em um patamar de superioridade sobre o bispo de Alexandria. Foi por isso que ele disse:

 

“Ao escrever a certas pessoas, e se dirige a mim dizendo, «Como tu o ordenaste». Esta palavra, ordenar, lhe rogo que a afaste dos meus ouvidos, já que sei quem sou eu e quem sois vós. Pois em posição sois meus irmãos, em caráter meus pais” 

 

Gregório rejeita o entendimento do bispo de Alexandria de que ele estava passando-lhe “ordens”, pois não estava em posição para fazer tal coisa. E ele diz que “sei quem sou eu e quem sois vós”. Essa seria uma ocasião perfeita para declarar aquilo que os católicos assumem abertamente nos dias de hoje: que o bispo de Roma está acima do de Alexandria e de todos os demais. Porém, o que Gregório faz é exatamente o inverso. Ele diz que “em posição sois meus irmãos”.

 

Em outras palavras, em posição (autoridade) na Igreja, o bispo de Alexandria era “irmão” (igualdade) do bispo romano, e não seu servo. O bispo de Alexandria não estava em inferioridade autoritativa em relação ao bispo romano, mas em igualdade! E, em seguida, ele afirma abertamente aquilo que todos os católicos insistem em negar: que Gregório Magno rejeitou o título de “papa universal” não somente para o bispo de Constantinopla, mas também para si mesmo:

 

“Pois eu disse que nem a mim nem a mais ninguém devia escrever alguma coisa do gênero; e eis que no prefácio da epístola que me dirigiu a mim que me recuso a aceitá-lo, considerou apropriado fazer uso de um apelido orgulhoso, chamando-me Papa Universal

 

O bispo de Alexandria o havia carinhosamente chamado de “bispo universal”, mas Gregório Magno rejeitou vigorosamente tal título, e se recusou a aceitá-lo, pois disse que aquilo era um “apelido orgulhoso”, que não deveria ser concedido nem a ele e nem a mais ninguém. Isso explica o porquê que ele ficou tão bravo com o bispo João de Constantinopla quando este fez uso de tal “título de blasfêmia”. Não era porque este “título de blasfêmia” era dele (Gregório) e não de João, mas porque era algo que não deveria ser dado nem a ele próprio (i.e, nem ao bispo de Roma) e nem a mais ninguém!

 

Isso desfaz as interpretações católicas de “apologistas” que dizem que Gregório somente rejeitou o título de bispo universal porque estava sendo aplicado ao bispo de Constantinopla, e não ao bispo de Roma. Um deles chegou a dizer:

 

“São Gregório se ‘opunha’ ao titulo justamente para aqueles que não o mereciam, pois não eram bispos de Roma, portanto só ao bispo de Roma compete esta autoridade”

 

Além do fato de que o sujeito católico que fez essa afirmação colocou o “opunha” entre aspas, quando Gregório Magno realmente se opôs prontamente a tal título, ele ainda afirma que ele se colocava contra somente para com aqueles que não eram bispos de Roma, mas não para si próprio. O que acabamos de ver, da citação do próprio Gregório, é uma categórica refutação a esta “interpretação”, pois vimos que Gregório Magno rejeitava este título até mesmo para si próprio, e não somente para aqueles que não eram bispos de Roma.

 

A verdade é que qualquer um que fizesse uso deste título em singularidade estaria se colocando como o “precursor do anticristo”, por aceitar este “apelido orgulhoso”. Até ele mesmo, pois ele próprio rejeitou tal título quando o bispo de Alexandria quis respeitosamente chamá-lo de tal coisa. Mais a frente, vemos Gregório dizendo:

 

“Mas rogo à sua dulcíssima Santidade que não volte a fazer tal coisa, já que o que é concedido a outro para lá do que a razão exige é subtraído de você mesmo” 

 

Aqui vemos que Gregório Magno não apenas rejeitou tal título, como também insistiu para que não voltassem a cometer o erro de chamá-lo deste modo. E o mais importante é o que ele diz na sequencia: que, se ele fosse chamado de “papa universal”, segue-se que os outros não seriam “papas universais”, e, desta forma, tal título seria subtraído dos demais bispos, para ser exclusivamente do bispo de Roma.

 

Isso não faz lógica para os católicos, pois, para eles, é exatamente esse o sentido de tal título: exclusividade e superioridade do bispo de Roma. Porém, Gregório afirma que tal título não poderia ser aplicado a ele por ser “para lá o que a razão exige”, e porque, se fosse assim chamado, os outros bispos estariam isentos de tal título. Isso é prova de que todos os bispos estavam em igualdade de autoridade, e não em superioridade de um em detrimento dos demais. Foi por isso que Gregório disse:

 

“Nem considero uma honra aquilo pelo qual sei que meus irmãos perdem a honra deles” 

 

Para Gregório, se ele fosse chamado de “papa universal”, os outros bispos (das outras igrejas) perderiam a honra deles! Ora, se só o bispo romano fosse reconhecido na época como sendo um “bispo universal” ou “bispo dos bispos”, então ele ser chamado em exclusividade por este termo não seria um demérito aos outros bispos, pois realmente só caberia ao bispo de Roma, em função de sua suposta primazia jurisdicional universal. Porém, como o fato é que todos os bispos tinham igual autoridade na Igreja, chamar algum deles singularmente (como o bispo romano) de “universal” seria desmerecer e rebaixar os demais. Por isso Gregório rejeitou prontamente tal título. E ele termina dizendo:

 

“Então sou verdadeiramente honrado quando não é negada a eles a honra devida a todos e cada um. Pois se Vossa Santidade me chama a mim Papa Universal, nega que seja você o que me chama a mim universalmente. Mas longe esteja isto de nós. Fora com as palavras que inflam a vaidade e ferem a caridade” 

 

Para Gregório, todos os bispos tinham igual autoridade. Não existia uma primazia universal de alguma das igrejas cristãs locais sobre todas as outras. Isso explica o porquê de ele ter dito que, “se chama a mim papa universal, nega que seja você o que me chama a mim universalmente”. Em outras palavras: se o patriarca de Alexandria concedesse este título a Gregório, ele estaria se reconhecendo como em uma posição inferior a ele. E esta não era a intenção, visto que a autoridade e liberdade de todas as igrejas era a mesma.

 

Os católicos dos dias de hoje afirmam abertamente que o patriarca de Alexandria não é um papa universal, mas o bispo de Roma sim. Já Gregório considerava todos os bispos em igualdade, motivo pelo qual todos são “universais”, ou então nenhum deles. Pois chamar apenas um (em exclusividade) de “universal” seria rebaixar todos os demais, e dizer que estavam submissos a Roma – “Mas longe esteja isto de nós; fora com as palavras que inflamam a vaidade e ferem a caridade”.

 

Isso se complementa ao que ele disse em sua epístola XX a Maurício César: que, se existe um bispo universal, então a integridade de toda a Igreja depende deste único bispo. Assim, se este bispo ou a igreja deste bispo cai em heresia, toda a Igreja cairia em heresia. Mas, se não existe um bispo universal ou “bispo dos bispos”, então mesmo que um deles caia em heresia a Igreja continuaria de pé, por causa da igualdade em autoridade de todos os bispos e de nenhum deles depender da autoridade de outro:

 

“Se então qualquer um nessa Igreja toma para si esse nome, pelo qual se faz a cabeça de todo o bem, segue-se que a Igreja universal cai do seu pedestal (o que não permita Deus) quando aquele que é chamado universal cai. Mas longe dos corações cristãos esteja esse nome de blasfêmia, no qual é tirada a honra de todos os sacerdotes, no momento em que é loucamente arrogado para si por um só

 

E é exatamente neste erro condenado por Gregório que a Igreja Romana caiu. Por orgulho, tomou para si com exclusividade o título de “bispo universal”, como se a integridade da Igreja de Cristo dependesse de Roma. Assim, a Igreja deles “caiu” do pedestal, como já previa Gregório, mas a verdadeira Igreja, que é o invisível Corpo de Cristo, a reunião de todos os cristãos eleitos no mundo inteiro, que não possuem um bispo universal terreno, continua subsistindo, para a glória de Deus.

 

Gregório não diria que esse é um nome de blasfêmia que tira a honra de todos os sacerdotes se existisse realmente um papa universal, que é o romano. Ele não teria dito que seria loucura que houvesse um só bispo universal na Igreja, se realmente existisse um único papa universal, que é o que está em Roma. Jamais teria afirmado para o bispo de Alexandria que em posição de autoridade eles eram iguais, ou que este título era algo novo e profano, ostensivo e fruto de vanglória, uma “invenção orgulhosa” para alargar o reinado, que tira a honra dos outros sacerdotes e que diminui a autoridade dos outros bispos. Isso porque a Igreja da época não tinha nada de “apostólica romana”, como conhecemos hoje!

               

 

Os Concílios da Igreja

 

De acordo com a Enciclopédia Católica Popular, um Concílio Ecumênico é “a reunião de todos os bispos, convocado e presidido pelo papa, destinado a dirimir questões de doutrina e disciplina para a Igreja universal”[61]. Porém, o que a História nos mostra é que, por séculos, os bispos romanos limitaram-se à administração de sua própria diocese, sem interferirem na jurisdição das demais, e por isso muitas heresias que foram julgadas nos primeiros séculos por concílios foram formados por bispos que não eram da Igreja de Roma, como, por exemplo:

 

1º Os Carpocrates, que negavam a divindade do Senhor Jesus.

2º Marcião, que negava a autoridade do Antigo Testamento e de Jesus.

3º Os gnósticos, que negavam que Cristo se fez carne e ressuscitou dos mortos.

4º Os milagres de Apolônio de Thiana.

5º Os Ebionitas e sua teologia dualista.

6º Saturnino e sua teologia da criação.

7º Os Valentinianos e suas teorias gnósticas.

8º Basílide de Alexandria, que negava a redenção.

 

O próprio Concílio de Niceia, provavelmente o mais famoso concílio da história da Igreja antiga, se deu sob a presidência do imperador romano Constantino, e não do bispo de Roma Silvestre[62]. Mesmo quando um bispo de Roma dirigia um concílio, raramente o vemos dirigindo sozinho, exclusivamente, mas ao lado de outros bispos de outras dioceses, que também presidiam, como é o caso do Concílio de Calcedônia:

 

“Confirmando também nós, as decisões e as fórmulas de fé do concílio reunido outrora em Éfeso (431) que presidiram Celestino (bispo) dos romanos e Cirilo (bispo) dos alexandrinos, de santíssima memória, definimos que tem que resplandecer a exposição da reta e descontaminada fé, feita pelos 315 Santos e bem-aventurados padres reunidos em Nicéia (325), sob o Imperador Constantino[63]

 

Eusébio de Cesareia, em sua História Eclesiástica, cita vários concílios que ocorreram na história da Igreja cristã até então, mas não menciona nem um único que tenha sido presidido pelo bispo romano. Ao contrário: dentre os que mais se destacaram em um concílio, ele nem sequer fez menção ao bispo de Roma!

 

“Entre eles, os que mais sobressaíram foram: Firmiliano, bispo de Cesaréia da Capadócia; os irmãos Gregório e Atenodoro, pastores das igrejas do Ponto; e depois deles, Heleno, da igreja de Tarso, e Nicomas, da de Iconio. Mas não somente eles, como também Himeneo, da igreja de Jerusalém; e Teotecno, da de Cesaréia, limítrofe desta; e além destes, Máximo, que dirigia também com muito brilho os irmãos de Bostra. E não seria muito difícil enumerar muitíssimos outros reunidos junto com os presbíteros e diáconos pelo mesmo motivo na citada cidade; mas de todos, pelo menos os mais destacados eram estes. Todos pois, reuniram-se para o mesmo, em diferentes e repetidas ocasiões. E em cada reunião levantavam-se razoamentos e perguntas: os partidários do samosatense, tentando ocultar ainda e dissimular o que houvesse de heresia; os outros, de sua parte, pondo todo seu empenho em desnudar e trazer à vista a heresia e a blasfêmia daquele contra Cristo”[64]

 

O concílio ecumênico de Calcedônia (381 d.C) é outro caso interessante, pois não teve o bispo de Roma naquela assembleia nem um só representante sequer, e foi presidido pelo imperador Teodósio. Por fim, o caso mais marcante e decisivo nessa questão é a análise do epítome do Cânon VI de Niceia, que diz:

 

“O bispo de Alexandria terá jurisdição sobre o Egito, Líbia e Pentápolis; assim como o bispo romano sobre o que está sujeito a Roma. Assim, também, o bispo de Antioquia e os outros, sobre o que está sob sua jurisdição. Se alguém foi feito bispo contrariamente ao juízo do Metropolita, não se torne bispo. No caso de ser de acordo com os cânones e com o sufrágio da maioria, se três são contra, a objeção deles não terá força”[65]

 

Note que cada bispo de cada igreja local (incluindo Roma) tinha autoridade delimitada a certos territórios, nenhum tinha autoridade universal. O bispo de Alexandria tinha jurisdição até maior que a do bispo romano, visto que presidia sobre o Egito, sobre a Líbia e sobre Pentápolis, enquanto o bispo romano somente presidia sobre Roma. E o concílio afirma na sequencia que a mesma regra valia também para todas as demais igrejas. Nisso fica claro que a autoridade romana não era diferente das demais nem tampouco se estendia acima delas; ao contrário, era uma jurisdição delimitada como a de todas as demais igrejas. Cada uma tinha autoridade somente sobre aquilo que estava “sob a sua jurisdição”, nenhuma tinha uma autoridade que se estendia à jurisdição das demais igrejas.

 

Se o concílio diz claramente que era o bispo de Alexandria que tinha a jurisdição sobre o Egito, a Líbia e Pentápolis, e que cada um só podia presidir sob a sua própria jurisdição, então estas províncias eram controladas eclesiasticamente pelo bispo de Alexandria, e não pelo bispo de Roma. Logo, a jurisdição romana não era universal. Era local e territorial – em Roma – assim como os demais bispos das demais igrejas cristãs locais, como a de Alexandria e a de Antioquia. Sobre esse cânon de Niceia, Paul Empie e Austin Murphy oportunamente ressaltaram:

 

“Parece limitar a autoridade de Roma às sedes suburbicárias. Isto pode refletir a situação real jurisdicional no final do século I. Niceia pressupõe uma liderança regional de Roma, mas não indica nada mais. Por conseguinte, conclui-se através do Concílio de Niceia, que um primado romano de jurisdição universal não existe nem como uma construção teórica nem como prática de fato aguardando interpretação teórica[66]

 

Assim sendo, é impensável a ideia de um primado jurisdicional universal do bispo de Roma, que, de fato, tinha uma jurisdição regional, que se limitava à própria Roma. O máximo que os Pais da Igreja (ou os concílios) chegaram alguma vez a mencionar foi um “primado de honra” do bispo romano, em função de ser o bispo da cidade que era a capital do império, e não um primado jurisdicional de autoridade sobre as outras dioceses cristãs. É assim que até hoje a Igreja de Roma é considerada pelas Igrejas Ortodoxas, como primus inter pares (primeiro entre iguais). Não que o seu bispo fosse o “chefe” soberano de toda a Igreja, mas que tinha a honra de ser o bispo da capital do império.

 

Isso explica perfeitamente o porquê que quando a capital do império passou a ser Constantinopla, séculos mais tarde, o bispo dessa cidade pela mesma razão passou a ter um primado de honra a seguir do bispo romano, como nos mostra claramente o Cânon 28 de Calcedônia:[67]

 

“Nós também promulgamos e decretamos as mesmas coisas sobre os privilégios da Santíssima Igreja de Constantinopla, que é a nova Roma. Pois os Padres justamente concederam privilégios ao trono de Roma antiga, porque era a cidade real. E os cento e cinqüenta religiosissímos bispos deram privilégios iguais ao santíssimo trono da Nova Roma, justamente julgando que a cidade é honrada com a Soberania e do Senado e goza de privilégios iguais com a antiga Roma imperial[68]

 

Isso nos confirma em termos claros que essa “primazia” da Sé Romana em nada tinha a ver com algum status de “jurisdição universal” ou por possuir um “bispo universal”, o que refutamos exaustivamente ao longo de todo este estudo com abundantes provas históricas. Tinha relação, sim, com um primado de honra, não por alguma autoridade divina, mas por ser a capital do império. Em outras palavras, se essa capital fosse qualquer outra, essa outra também teria um “primado de honra”, e é por isso que o Cânon 28 de Calcedônia diz que Constantinopla teria privilégios iguais aos de Roma e era a “Nova Roma”: porque a capital do império havia sido transferida a Constantinopla!

 

Isso fez com que Karl Joseph Hefele (1809 – 1893), a maior autoridade católica do século XIX, admitisse:

 

“Não posso entender como é possível, depois de ler as atas precedentes, imaginar-se sequer por um instante que os bispos deste Concílio considerassem os direitos em discussão como de origem divina, e que o ocupante da Sede de Roma fosse, jure divino, supremo sobre todos os pontífices. É bem possível, claro está, afirmar, como alguns fizeram, que as atas tais como as temos foram mutiladas, mas o argumento implica não só muitas dificuldades mas também não poucos absurdos; e não obstante não posso senão pensar que até esta hipótese extrema é preferível a qualquer tentativa de reconciliar as atas como as temos agora com a aceitação por parte dos membros do concílio da doutrina de uma supremacia papal jure divino tal como é agora sustentada pela Igreja Latina”[69]

 

Quando, porém, o bispo de Roma, inflamado pelo orgulho e arrogância, quis se sobrepor a todos os demais bispos, ostentando para si o “título de blasfêmia”[70] que o próprio Gregório Magno havia rejeitado porque considerava ser do “precursor do anticristo”[71], houve o Cisma do Oriente:

 

“Ao contrário do que alguns historiadores afirmam, o cisma é realmente ‘do Ocidente’, visto que foi a Igreja Romana quem se separou da comunhão de Fé das Igrejas Irmãs (...) De fato, a Igreja de Roma, graças a fatores essencialmente políticos, de ambição do poder temporal, desenvolveu a partir da Idade Média, a doutrina da primazia do Papa (título, aliás, dado aos Patriarcas de Roma e de Alexandria) como último e, depois, como único recurso em matéria de Fé. Ora, isto era, é e será, completamente estranho à Tradição da Igreja dos Apóstolos, dos Mártires, dos Santos e dos Sete Concílios Ecumênicos”[72]

 

E também:

 

“Toda esta divergência de pontos de vista entre Roma, considerando-se única detentora da verdade e da autoridade, e as restantes Igrejas Irmãs, que desejavam manter-se fiéis ao espírito da Tradição herdada dos Apóstolos, acabou por resultar nos trágicos acontecimentos de 1054 e 1204. No dia 16 de julho de 1054, os legados do Papa de Roma entraram na Catedral de Santa (em Constantinopla, capital do Império), um pouco antes de começar a Sagrada Liturgia, e depositaram em cima do altar uma bula que excomungava o Patriarca de Constantinopla e todos os seus fiéis. Esta separação oficial, decidida pela Igreja Romana, teria sua confirmação em 1204, quando os cruzados, que se intitulavam cristãos, assaltaram Constantinopla, saquearam e pilharam, fizeram entrar as prostitutas que traziam consigo para dentro do santuário de Santa, sentaram uma delas no trono do Patriarca, destruíram a iconostase e o altar, que eram de prata. E o mesmo aconteceu em todas as igrejas de Constantinopla[73]   

 

A Igreja Católica Romana caiu pela mesma razão daquele que disse:

 

“Subirei aos céus; erguerei o meu trono acima das estrelas de Deus; eu me assentarei no monte da assembleia, no ponto mais elevado do monte santo. Subirei mais alto que as mais altas nuvens; serei como o Altíssimo" (Isaías 14:13,14)

 

Nada mais próprio para tratar do papado ao longo dos séculos do que aquilo que Salomão já havia escrito há milênios: “o orgulho precede a queda” (Pv.16:18).

 

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

 

Por Cristo e por Seu Reino,

Lucas Banzoli.

 



[1] Inácio aos Magnésios, 6:1.

[2] Inácio aos Magnésios, 7:1.

[3] Inácio aos Magnésios, 13:1.

[4] Inácio aos Tralianos, 2:1.

[5] Inácio aos Tralianos, 3:1.

[6] Inácio aos Tralianos, 7:1.

[7] Inácio aos Tralianos, 13:1.

[8] Inácio a Policarpo, 6:1.

[9] Inácio aos Efésios, 2:2.

[10] Inácio aos Efésios, 5:3.

[11] Inácio aos Efésios, 20:1.

[12] Inácio aos Filadelfienses, Saudações.

[13] Inácio aos Filadelfienses, 7:1.

[14] Inácio aos Erminiotas, 8:1.

[15] Inácio aos Magnésios, Versão Curta, 3:1.

[16] Inácio aos Romanos, 9:1.

[17] Inácio aos Romanos, Saudações.

[18] Inácio aos Efésios, 1:1.

[19] Inácio aos Efésios, 2:2.

[20] Inácio aos Efésios, 8:1.

[21] Inácio aos Efésios, 11:2.

[22] Discurso de São Cirilo de Alexandria pronunciado no Concílio de Éfeso.

[23] Inácio aos Magnésios, Versão Longa, Cap.10.

[24] Epístola de Maria a Inácio, “Saudações”.

[25] 1ª Carta de Clemente aos Coríntios, 61:1-3; 64:1.

[26] Irineu de Lião, Contra Heresias, livro 3, capítulo 3.

[27] Uma abordagem mais completa sobre este texto de Irineu o leitor pode conferir neste link: <http://www.e-cristianismo.com.br/en/apostolic/262-irineu-e-a-igreja-em-roma>. Acesso em: 04/10/2013.

[28] BACCHIOCCHI, Samuelle. “Roma e a controvérsia da Páscoa”. Disponível em: <http://www.nossasletrasealgomais.com/2011/07/roma-e-controversia-da-pascoa.html>. Acesso em: 04/10/2013.

[29] Eusébio de Cesareia, HE, Livro V cap. XXIV.

[30] Hans van Campenhausen, Os Pais da Igreja, pág.24.

[31] Eusébio de Cesareia, HE, Livro V, 24:9.

[32] Eusébio de Cesareia, HE, Livro V, 24:16-17.

[33] O bispo de Roma, cap. i. p. 597.

[34] Papa Pio X, “Como amar o Papa”, Alocução aos Padres da Confraria “A União Apostólica”, de 18 de Novembro de 1912.

[35] Tertuliano, Contra Práxeas, 1.

[36] O bispo de Roma, cap. i. p. 597.

[37] Clemente Alexandrino, Llivro VI das Hypotyposeis.

[38] Eusébio de Cesareia, HE, Livro III, 11:1.

[39] Sétimo Concílio de Cartago, presidido por Cipriano.

[40] Concílio de Cartago, ano 418.

[41] Epístola 74.

[42] Epístola 33 de Cipriano, parágrafo 1.

[43] Da Unidade da Igreja, Cap. 5.

[44] Epístola 66 de Cipriano, parágrafo 8.

[45] Sobre essa epístola, confira uma explicação mais detalhada no artigo intitulado: “Cipriano de Cartago e a Cátedra de Pedro”: <http://lucasbanzoli.no.comunidades.net/index.php?pagina=1087029193>.

[46] Confira como e por quem estes textos foram adulterados neste link: <http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2012/09/adulteracoes-catolicas-nos-escritos-de.html>.

[47] Jerônimo, Letter 63, To Theophilus.

[48] Jerônimo, Letter 88, To Theophilus.

[49] Jerônimo, Letter 90, From Theophilus to Epiphanius.

[50] Jerônimo, Letter 146, To Evangelus, Cap.2.

[51] De Viris Illustribus, 17.

[52] Eusébio de Cesareia, HE, Livro I, 3:8.

[53] Eusébio de Cesareia, HE, Livro IV, 15:35; Livro I, 3:8.

[54] Eusébio de Cesareia, HE, Livro V, 7:4.

[55] Homília sobre Castidade, Matrimônio e Família. Disponível em: <http://www.ecclesia.com.br/Biblioteca/pais_da_igreja/s_joao_crisostomo_vida_e_obra.html>. Acesso em: 04/10/2013.

[56] Epístola XX a Maurício César (NPNF 2 12:170-171).

[57] Gregório Magno, a Maurícius Augustus.

[58] Gregório Magno, Epistolarum V, Ep. 18, PL 77, pag. 739-740.

[59] Epístola LXVIII.

[60] Gregório Magno, Epístola 8.30, a Eulógio, bispo de Alexandria.

[61] Código de Direito Canônico, 337.341.

[62] A Definição de Calcedônia, realizada pouco mais de um século depois de Niceia, deixa bem claro que o Concílio de Niceia foi presidido pelo imperador Constantino, e sequer faz qualquer menção ao bispo romano Silvestre.

[63] Definição de Calcedônia, ano 451.

[64] Eusébio de Cesareia, HE, Livro VII, 28:1-2.

[65] Concílio de Nicéia, Cânon VI.

[66] Paul Empie and Austin Murphy, Ed., Papal Primacy and the Universal Church (Augsburg: Minneapolis, 1974), Lutherans and Catholics in Dialogue V, pp. 72, 77.

[67] Uma abordagem mais aprofundada sobre esse Cânon 28 de Calcedônia pode ser conferida neste link: <http://conhecereis-a-verdade.blogspot.com.br/2010/11/o-canon-28-de-calcedonia.html>. Acesso em: 04/10/2013.

[68] Cânon 28 de Calcedônia.

[69] Hist Conc 3:428 (citada em NPNF2, 14:295).

[70] Epístola XX de Gregório Magno a Maurício César (NPNF 2 12:170-171).

[71] Gregório Magno, a Maurícius Augustus.

[72] “O Cristianismo Ortodoxo em Perguntas e Respostas”. Disponível em: <http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/igreja_ortodoxa/o_cristianismo_ortodoxo_em_perguntas_e_respostas.html>. Acesso em: <04/10/2013.

[73] ibid.

 

 

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